domingo, 14 de dezembro de 2008

O Que Foi Que o Mendigo Disse?


Rafael estava triste, desmotivado. Sua mulher havia deixado de amá-lo, e havia a muito procurado um amante e somente nesse dia ele havia descoberto.

Levantou da cama, se vestiu naquela manhã de domingo.

Sem nada para fazer, saiu de casa e andou sem rumo.

Até aquele dia, nunca tinha reparado como era penoso viver sem amor e com o peso da traição.

Depois de andar durante horas, sentou-se à sombra de uma árvore frondosa no banco de uma praça, de cabeça baixa, começou e repensar a sua vida e a chorar.

Ao seu lado, sentou-se um homem que, pelo seu aspecto, lhe pareceu um mendigo.

Quase se levantou para seguir o seu caminho, mas o sorriso do homem o reteve. Aos poucos, se estabeleceu um diálogo e uma animada conversa que se estendeu por horas.

Finalmente, Rafael se levantou do banco, deixando algum dinheiro na mão do mendigo.
Sua postura, ao voltar para casa já estava diferente. Agora, com passo enérgico, tomou seu banho, fez a barba e se vestiu com todo cuidado. Saiu sem dar explicações e sua mulher, que já não o amava, se mostrou levemente curiosa com a sua nova atitude. Voltou à noite, bem tarde.

No dia seguinte, cumprimentou gentilmente sua mulher e foi trabalhar.

Na volta, vestiu um short, calçou tênis e fez uma longa caminhada noturna.

Dormiu com excelente disposição. O dia seguinte foi igual, talvez melhor. Assim procedeu durante muito tempo.

Sua mulher, que não o amava, e seus filhos se surpreenderam.

Parecia ter perdido a tristeza.

Ganhara uma força e uma elegância que a família nunca antes tinha notado.
Continuou a ser gentil com a mulher, mas nunca mais lhe pediu desculpas ou explicações, nem exigiu que fizesse amor com ele.

Passaram-se meses.

A atitude do marido continuava firme e a disposição otimista, se instalou de vez.

A mulher se sentia cada vez mais intrigada com a mudança miraculosa do marido e teve mais simpatia por suas novas atitudes, sábias e moderadas.

Embora ela persistisse em não amá-lo, ele melhorava seu desempenho como pessoa e como pai.

Agora, os amigos o procuravam.

Era evidente que tinha se transformado num homem sábio.
Quanto a mim, sou um sujeito profundamente curioso, talvez por gostar de escrever e fui à mesma praça onde estivera Rafael com o intuito de procurar o mendigo.

Pude reconhecê-lo imediatamente. Sem vacilar, sentei-me a seu lado.
Apresentei-me e perguntei o que ele tinha dito para Rafael.

Sorrindo, o mendigo me respondeu: "Ah, lembro... Não dei grande conselho.

Disse-lhe apenas que, com minha experiência de mendigo, aprendi que nunca se deve pedir dinheiro e, pelas mesmas razões, jamais se deve suplicar amor.

Essas são duas coisas que sempre nos negam quando as pedimos". E sorrindo, acrescentou:

"O dinheiro, a gente ganha; o amor se conquista".

Pense nisso...

Texto de José Maria Font Juliá.

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