quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crise entre o Planalto e o PMDB fragiliza Temer


Em pleno recesso parlamentar, armou-se em Brasília uma crise que contrasta com o tédio da inatividade do Legislativo. Deve-se o rebuliço à decisão de Dilma Rousseff de apertar o PMDB na região mais sensível do partido: o segundo escalão da máquina governamental.

Na tradução de um auxiliar do Planalto, o PMDB “grita” porque Dilma age com “sensatez”. Munida de auditoria que aponta desvios de R$ 312 milhões no Dnocs, a presidente resolveu trocar a direção do órgão de combate à seca, sob os domínios do PMDB desde a gestão Lula.

A investida de Dilma produziu um efeito colateral. Um pedaço do PMDB passou a questionar a liderança do vice-presidente Michel Temer. Não é um pedaço qualquer. As contestações pipocam no grupo mais fiel a Temer, o chamado PMDB da Câmara.

Alega-se que Dilma dá de ombros para o seu segundo. Temer não teria ascendência sobre ela. Meia verdade. A presidente informou a Temer sobre suas intenções. Disse-lhe que deseja trocar o comando do Dnocs em combinação com o partido.

Conversa fiada, estão grudando no PMDB o carimbo de ladrão, reagiu uma liderança do partido. Proliferando a atmosfera de instabilidade, Temer arrisca-se a perder o capital político que fez dele o vice de Dilma: a unidade partidária.



A percepção do suposto desapreço de Dilma por Temer é vitaminada pela presença do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), no epicentro da crise. Não há na legenda ninguém mais identificado com Temer do que Henrique.

A despeito da proximidade, é para um apadrinhado de Henrique que a mira de Dilma está apontada. Chama-se Elias Fernandes Neto. Responde pela direção-geral do Dnocs. A depender da vontade da presidente, Elias vai ao olho da rua em fevereiro.

Se nem Henrique, potencial candidato à presidência da Câmara, está a salvo, o que será do resto do partido?, pergunta outro membro do grupo de Temer. Autorizado por Dilma, Temer encomendou a Henrique a indicação de um substituto para Elias.

Porém, o deputado pega em lanças por seu afilhado. Rejeita a ideia de uma substituição motivada por suspeições. Apontar um substituto equivaleria a admitir que Elias tem culpa no cartório. Uma conta que Henrique não se mostra disposto a pagar.

A munição que alimenta a artilharia do Planalto vem de um relatório da Controladoria-Geral da União. É nesse documento, de 252 folhas, que estão relacionadas as irregularidades de R$ 312 milhões. Dele resultaram, nas últimas 48 horas, duas notas oficiais contraditórias.

A primeira foi divulgada por Fernando Bezerra, de cujo ministério –Integração Nacional— pende o Dnocs. No texto, respaldado pela Presidência, o ministro “reafirma a posição de renovar os quadros das empresas vinculadas à pasta.”

Bezerra informa que os “novos nomes […] serão anunciados até o início de fevereiro.” Quem lê fica com a impressão de que Elias Neto é uma demissão iminente, esperando a melhor oportunidade para acontecer.

A segunda nota foi veiculada nesta quarta (25), no site do Dnocs. Uma peça na qual Elias refuta as acusações da CGU. Escreve, por exemplo, que R$ 160 milhões classificados pela controladoria como “desvios” referem-se a uma barragem licitada em 2002, sob FHC.

Uma obra que, segundo Elias, não saiu do papel. Mais: teve a licitação anulada por ele. Se nada foi gasto, malversação não houve. Noutro trecho, desmerece a acusação de desvio de R$ 120 milhões. O dinheiro engordou os contracheques de servidores do Dnocs.

Elias toma distância da encrenca. Alega que o pagamento decorre de um decreto assinado em 1988 (2.438). Decisão corroborada posteriormente por uma “nota técnica” do Ministério do Planejamento. Nada a ver, portanto, com decisões de sua gestão.

Refuta, de resto, a acusação de que privilegiou o seu Rio Grande do Norte, torrão natal também do padrinho Henrique, com convênios de R$ 12 milhões. A verba foi liberada. Mas representa, segundo Elias, “apenas 5,05% dos valores repassados pela Defesa Civil aos Estados”.

O relatório da CGU e a defesa do Dnocs foram remetidos ao TCU. Para Henrique, seria absurdo demitir Elias antes do pronunciamento do tribunal de contas. Plugado no twitter, o deputado ecoou os argumentos expostos na nota do afilhado.

A certa altura, anotou: “Nem CGU nem Dnocs-Ministério da Integração são donos da verdade. Órgão autorizado para dirimir conflitos e decidir [sobre a] correção é o TCU.” Disse descrer da versão de que estaria sendo vítima de “fogo amigo” do petismo.

Como que decidido a bancar Elias, acomodou o relatório de auditoria que inspira Dilma em cima do telhado: “A CGU é um órgão de assessoramento do governo, que respeito. Mas pode se equivocar também. Vamos às provas!”

Na cena envenenada do PMDB, até a tenacidade de Henrique virou matéria prima para críticas. Deputados do partido o acusam de abandoná-los à própria sorte. Num instante em que Dilma raciona a farinha, o líder cuidaria primeiro do seu próprio pirão.

Na semana passada, o Planalto mandou à bandeja o escalpo de Albert Gradvohl. Era diretor financeiro do mesmo Dnocs. Uma indicação da bancada do PMDB do Ceará. A reação veio do liderado Danilo Fortes (PMDB-CE), não do líder Henrique.

O deputado Danilo comparou a demissão de Albert, servidor de terceiro escalão, com o tratamento dispensado por Dilma ao ministro Fernando Bezerra, acusado de nepotismo, de tráfico de influência e de privilegiar seu Estado, Pernambuco, no rateio de verbas anti-catástrofes naturais.

“É como se um paciente tivesse um câncer na cabeça, mas estão tirando o bicho de pé”, disse Danilo Fortes. A analogia se dissemina entre os colegas de partido. Prolifera a versão segundo a qual Dilma transforma Temer numa espécie de sub-Eduardo Campos.

Governador de Pernambuco, Eduardo é padrinho político de Bezerra. O ministro pertence aos quadros do PSB. A legenda, presidida pelo governador, é sócia minoritária do condomínio governista. Daí a irritação do PMDB, que se considera sócio majoritário.

Para desassossego de Temer, começa a ressurgir no partido uma richa interna que parecia superada. De um lado, o PMDB da Câmara. Do outro, o PMDB do Senado. Para os aliados do vice-presidente, Dilma fustiga apenas o primeiro grupo.

Nas palavras de um amigo de Temer, só quatro integrantes do PMDB estariam satisfeitos com o tratamento recebido do Planalto: os senadores José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL), Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO).

Insinua-se que a insatisfação da Câmara terá resposta. Ela viria nas votações que estão por vir. As fornalhas do Congresso serão reativadas em fevereiro, junto com a prometida dança de cadeiras do Dnocs. Para complicar, abriu-se na Funasa, órgão da Saúde, nova fonte de atrito do PMDB com o PT (detalhes aqui).

Josias de Souza

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