quinta-feira, 29 de março de 2012

Demóstenes Torres e as Vestais


Confesso que o envolvimento do senador Demóstenes Torres com o mafioso Carlinhos Cachoeira foi uma surpresa para mim, um choque, na verdade. E sei que milhões de brasileiros estão tão chocados quanto eu. Sabemos que não existem santos em política, mas ninguém esperava que esse promotor de justiça, secretário de segurança de Goiás, paladino da ética pública, fosse apanhado pela justiça federal em conversas com Cachoeira, numa operação em que 80 pessoas – vários delegados e policiais – foram indiciadas e outras presas, por formação de quadrilha e outros crimes graves. Descobriu-se que Demóstenes fez 300 ligações telefônicas para Cachoeira, num prazo de sete meses, e detinha um telefone exclusivo para falar com o criminoso.
Foi triste ver Demóstenes Torres ser defendido por dezenas de senadores enquanto fazia seu tosco discurso de defesa no senado. Ele, que parecia desprezar os colegas, como se fosse uma rosa em uma floresta de espinhos! Foi deprimente ver Demóstenes, um advogado, procurador de justiça, diante das câmeras de televisão, consultando um advogado criminalista, e se negando a responder uma simples pergunta sobre o uso de um telefone. Demóstenes morreu ali, naquele momento. Terminava naquela entrevista a carreira da Vestal da política brasileira.
Deixem-me dizer o que é uma vestal. Na Roma antiga, antes da chegada de Cristo, Vesta era a deusa mais importante dos romanos, detentora de um belíssimo templo consagrado a ela. O santuário era guardado pelas vestais, jovens escolhidas aos dez anos de idade, que ficavam encarregadas, durante 30 anos, de zelar para que o fogo sagrado nunca apagasse. Durante esse tempo, elas deveriam permanecer virgens, e levar uma vida de castidade e pureza. Se uma delas quebrasse os votos, o crimen incesti, era condenada a morte por decapitação ou tapocrifação (enterrada viva).
Nem Gilberto Kassab ao construir o PSD atingiu tão mortalmente o Democratas como Demóstenes. A reserva moral do DEM, o homem que partiu para cima de Roberto Arruda, por muito menos do que é agora acusado, foi flagrado em uma relação estreitíssima com um notório criminoso. Um senador moralista, draconiano, competente, rigoroso receber presentes, e falar diariamente com um sujeito desse tipo, e dizer que era conselheiro sentimental... Nem criancinhas acreditam em Demóstenes.
Demóstenes acabou-se. Virou um Zumbi no Senado, e seus colegas senadores estão felizes com isso. Ele agora vai dizer amém pra todo mundo, vai votar todos os projetos, irá a todas as reuniões de comissões, fará tudo para salvar seu mandato. Aquela voz que fazia tremer os corruptos do Brasil calou-se. Virou um cordeirinho! Demóstenes Torres agora vai andar com Gim Argello, Ivo Cassol, Jáder Barbalho, os “queimados” do Senado. Se não fosse senador da república, estaria preso ao lado de Carlinhos Cachoeira e sua quadrilha. Tentar anular as provas contra ele, junto ao STF, como está fazendo, só piora sua situação. A sociedade já entendeu tudo.
Demóstenes é o maior exemplo de que a sociedade precisa desconfiar de homens públicos que se dizem imaculados – Vestais – principalmente, se esse homem é pago pelo estado para promover justiça. O fato de Demóstenes Torres ser promotor de justiça agrava ainda mais sua situação. Ela agora junta-se a Leonardo Bandarra e Débora Guerner, como mais um membro defenestrado do MP.
Dizem os brasileiros: “Desgraçado Demóstenes, que as vestais romanas rezem por ti, tu apagaste o fogo sagrado e, para a sociedade, cometeste o crimen incesti! E se não vivêsseis no século XXI, serias condenado a tapocrifação”!

Theófilo Silva é articulista colaborador da Rádio do Moreno

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